Simplismo evangélico

A ignorância é a mãe das corrupções – já dizia o antigo profeta. Esta afirmação, tão contundente, revela sua onipresença no desenrolar da história humana. É a falta de iluminação racional que contribui para a proliferação de toda espécie de “vermes” que se alimentam de detritos alojados na escuridão de uma consciência trancafiada em sua própria subnutrição intelectual.
Como não poderia deixar de ser, contextos religiosos não estão imunes a tal infestação. Construídos na massa social e pertencentes ao meio, os dogmas do sagrado se erguem em cima de estruturas flutuantes do mar tempestuoso da cultura vigente.
São nos porões do obscurantismo intelectual, onde rastejam elementos desprovidos de quaisquer escrúpulos envoltos em bandeiras de emblemas de sucesso, que são fabricados zumbis satisfeitos por reproduzir frases de efeito vociferadas por seus líderes.
De proveniência espúria e sem qualquer embasamento numa hermenêutica responsável, figuram no cardápio do “restaurante” evangélico, pratos dogmáticos altamente venenosos, servidos com acompanhamentos de versículos descontextualizados, preparados por cozinheiros mestres especialistas em alfarrobas suculentas.
O povo em geral, incauto e sem interesse por uma busca árdua e trabalhosa pela verdade dos conceitos, engole tudo o que é servido sem o olfato dos bereanos ou a investigação lucana. Presas de tais seres rastejantes que se beneficiam do descuido alheio e se alimentam da ignorância da massa, as vitimas de tal tragédia, se orgulham de reproduzirem pensamentos formatados, inculcados em suas mentes de forma sistemática, enquanto são exploradas e violentadas em suas consciências.
Tais prisioneiros de suas próprias ignorâncias alimentam insistentemente seus feitores que engordam e se revolvem na concupiscência de suas próprias ânsias. Esta liderança inescrupulosa sabe muito bem equipar seus soldados com munição fajuta. Lançando granadas fictícias e atirando com balas de efeito moral, os súditos de tal reinado obscuro pronunciam versículos completamente desprovidos de contexto. Rajadas do tipo: “Não julgueis”, são disparadas constantemente para defender ou impedir qualquer ataque à ação maléfica dos seres rastejantes. Mal sabem eles que o julgamento contra aquilo que é pronunciado, não somente é imperativo daqueles que conhecem a Palavra, como também expressa obediência ao “julgai entre vós as profecias”, que tão claramente nos incentiva à observação e condenação de qualquer “evangelho” que não seja puro e simples em sua essência. A falta de observação de tal ordem divina, assim como a ausência da prática do discernimento de espíritos, faz com que as presas sejam facilmente emaranhadas nas garras de seus predadores, enquanto proclamam a todos pulmões: “Pelo menos eles estão fazendo alguma coisa”. A prática adquire aqui uma importância inquestionável, mesmo que seja sob o manto de intencionalidades manchadas.
Ainda ressoa no pântano do farisaísmo religioso a crítica de Jesus contra a ignorância, na majestosa frase: “Errais não conhecendo as Escrituras…”.
O simplismo evangélico acaba proporcionando a ambiência para a proliferação de toda espécie de seres peçonhentos que se disfarçam sob o manto da religião, mas que acabam sendo descobertos em suas próprias elaborações discursivas.
Buscando a excelência dos ensinos de Jesus e numa luta incessante contra as inverdades em nome da fé, que não deixemos de expressar a voz no deserto, considerando anátema toda pregação que, utilizando as palavras do evangelho, o asfixia em uma torção visceral.

Everson Spolaor

A Inversão da Realidade…

O grande messias, profeta, rabi Jesus, por meio de parábolas, incentivou a imaginação de todos que o cercavam. Sejam elas alegorias, metáforas, paródias, experiências cotidianas ou ficção; sejam elas estórias que o mestre inventou ao acaso para ensinar um caso real; sejam histórias exemplares em dois níveis; sejam elas um ensino antigo vindo da oralidade ou, do fenômeno da “paralelomania”, etc.; uma coisa que sinto quando leio as parábolas de Jesus é uma esplêndida emoção, pois viajo naquilo que o mestre ensina. E seu ensino é um discurso que evidencia sua linguagem.

A linguagem de Jesus é a linguagem do Reino de Deus. E essa, é uma “linguagem de inversão”. Isso porque o Reino de Deus não é algo tão espiritual que não possa ser palpável e, nem tão tangível que não revele uma espiritualidade mística. Não penso que seja tão celestial ou puramente escatológico quanto o é, também, tão físico, presente e real. Parábola é (se não a única), a mais clara linguagem que Jesus proferiu entre os seus seguidores e as multidões; é, por conseguinte, o meio mais inteligível e visível (ver como meio de ação) da manifestação do Reino.

Entre os evangelistas ou narradores dos evangelhos, o destaque fica com Lucas como o maior contador de es/histórias. Lucas é o evangelho com maior material próprio, mesmo utilizando Marcos, Mateus e fonte Q (Quelle). Sua formidável forma de injetar novas histórias no meio de histórias já contadas revela sua pessoalidade em lidar com o conteúdo que vem escrevendo e, principalmente, com a moldura que quer destacar e configurar de sua teologia. Isso é entendido quando lemos os dois escritos (Evangelho de Lucas e Atos dos Apóstolos) como originalmente foi encontrado: não separado como temos na Bíblia. É o único evangelho que não acaba em Jerusalém (como centro da boa-nova), mas se dirige rumo aos confins da terra.

Mas voltando, aprendi que não se faz “hermenêutica teológica” de parábolas, principalmente das narrativas parabólicas. Não se tira delas doutrina alguma. Não me lembro do por que! Mas sei que é quase impossível fazer isso quando se entende essa linguagem como um profundo “desvendar do mundo experiencial das pessoas que viveram na época do surgimento da tradição oral e escrita sobre Jesus de Nazaré e, desse modo, também do Jesus “histórico””.  Talvez porque denegrimos o sentido da teologia nas narrativas parabólicas, pois o que podemos encontrar nelas, no mínimo, é uma “teologia simplificada”, o que já nos levaria a sua alegorização.

Entendo-as – dentre muitas hermenêuticas – como uma “estrutura”, seja ela de “dominação politica ou estrutura do mundo do trabalho e das relações sociais”. Como estrutura, ela manifesta a injustiça da riqueza e a miséria da pobreza, entre outras. “As narrativas parabólicas como tais já fornecem uma análise social” e são “em grande parte, armas de luta”, pois exigem uma resposta concreta e imediata do leitor. Como diária Abreu: “o propósito de quem constrói uma parábola é que seu destinatário possa integrá-la, cognitivamente, à suas ações cotidianas”.

Mas as parábolas também tem o feitio de nos inundar com as estruturas divinas, as estruturas do céu que se fazem presentes na terra, como afirma a oração do Pai Nosso “assim na terra como no céu”. Elas, as parábolas, se configuram como a via que possibilita o Reino divino estruturar-se na terra assim como o Cristo habitou entre nós. Elas nos falam de uma humanidade divina, de uma humanidade livre, de uma expectativa tão ausente na terra dos viventes. Como palavras de Jesus se tornam uma linguagem para nós “em uma variedade de ambientes e circunstâncias”. Convidam-nos a andar entre as estruturas que precisam ser invertidas e a espiritualidade de seu autor. São tanto língua do Espírito Santo quanto língua secular, sem barreiras entre essa noção de uma linguagem para falar com Deus e uma linguagem para falar das coisas que estão em volta da gente.

Penso eu, com minha mentalidade cristã de um tempo dito pós-moderno, que a linguagem da Bíblia é, ela toda, um meio de revelação. Deus usa da linguagem para nos comunicar a si próprio; nós utilizamos a linguagem para nos comunicar com Deus e com o próximo. Assim, somos revelados uns aos outros em um ciclo que quase sempre não captamos, não acessamos facilmente, no entanto, compreendemos a essência da revelação de ambas as partes. As parábolas de Jesus funcionam assim, revelam e escondem, porém sempre cravam em nós o fundamento de sua comunicação. Isso não tem nada haver com “sentidos enigmáticos”.

Sejam as ditas “exemplum”, as de utilidade universal de ensino, as narrativas parabólicas que mostram as estruturas de poder, as de ensinos gerais, etc.; elas funcionam como um discurso de Jesus em “uma situação concreta e uma situação única” que faz menção de uma realidade que não podemos captar inteiramente. A importância é que elas falam de uma realidade e criam para nós outra realidade a partir da realidade que dela captamos. Apesar de todo conteúdo teológico que sobrevém antes e depois de uma parábola, ela é uma “vírgula”, uma parada brusca de seu narrador para nos revelar algo que não observamos do conjunto maior, a macronarrativa. Assim entendo as parábolas.

Desse modo, visualizando como ação e tendo poder criador de novas realidades, as parábolas de Jesus se tornam a marca de sua linguagem presente naquele tempo de dominação romana na Palestina do primeiro século. Longe de querer se fazer valer às pesquisas do Jesus histórico, quero muito mais entender as parábolas como querigma, como linguagem excepcional, de raro valor com expressões totalmente inteligível, pois falam de um tempo presente, em todas as eras, espaços, circunstâncias e encontros. Aí se dá a inversão, pois inversão sugere conflito. E conflito é o que mais temos tanto interior quanto exteriormente.

É na inversão que acontece “julgamento e justiça”, e as parábolas estão repletas desses dois conceitos, uma vez que esses conceitos justificam a função da expectativa messiânica escatológica e apocalíptica daquele tempo. Não falo de “equalização” como pensavam e propunham os gregos em suas narrativas de viagem do além-mundo; reflito de um imaginário composto e embebido de uma esperança de ver cumprido um tempo no tempo, onde o querigma seria efetuado nas relações e vivido como na expressão da cruz: “está consumado”.

Pode parecer estranho o que vou dizer, mas Jesus não consumou tudo na cruz. Ele cumpriu, sim, o propósito do Pai, àquele já pré-determinado narrativamente por Pedro, o de derramar seu sangue por nós pecadores. Ele deu sinais do Reino em tudo o que fez: milagres, curas, sinais e prodígios […], mas não curou a todos, não pregou a todos, não se valeu a todos, ele simplesmente deu sinais de seu Reino e deixou claro em sua linguagem que deveríamos fazer o mesmo: levarmos o querigma por onde quer que fossemos, fazendo suas obras, mudando realidades e criando outras possíveis por meio da inversão de valores, inversão de padrões, invertendo as posições, sendo os últimos, sendo os que servem, agindo em amor, apontando os erros, derrubando os altares de mamom; e então consumaríamos e exumaríamos as realidades infernais que tanto impedem o Reino de Deus de reinar nesse mundo.

Sou passível dessa intepretação, mas Paulo o apóstolo disse que para nós ainda “resta um pouco das aflições de Cristo” no sentido de completar em nossa vivência ligada a Ele aqui, parte de sua estadia nessa terra entre nós. Somos compelidos há por um fim em certas realidades, mesmo que isso nos custe o sofrimento. Consumar e exumar/reviver é parte dessa tarefa e parte valorosa de cada um que se diz cristão.

As parábolas falam o tempo todo dessa inversão, dessa consumação que exumaria as realidades vividas. Entende-las é prioridade de todo expositor e leitor ávido da linguagem de Jesus. Entende-las e agir é perseguir sua finalidade entre nós, é criar novas realidades dentro das realidades existentes; entender a linguagem de Jesus é como disse J. Jeremias: é encontrar a “ipsissima vox de Cristo” e então abraça-las como minhas, como vontade da Trindade.

 

A nudez da Alma

“Se conhecesses o dom de Deus e quem é que te diz: ‘Dá-me de beber’, tu é que lhe pedirias e ele te daria água viva!”

Certa vez, um homem mudando o percurso de sua viagem decidiu seguir para uma cidade da qual não era muito bem falada pelo seu povo. Principalmente, porque os desta cidade tinham costumes diferentes, experiência religiosa diferente, ritos diferentes.

Porém, determinado a seguir para seu rumo e, morrendo de sede, avistou a cidade. Fora dela encontrou um poço e uma mulher tirando água deste poço. Ele pensou, vou matar minha sede.

Chegando próximo à mulher e ao poço, o viajante lhe pediu água e esta lhe recusou. Mas a conversa não ficou apenas em um pedido d’ água. Foi além. “Água viva”, “dom”, “profeta”, “maridos”, “monte”, “adorador”, “espírito”, “verdade”, “alimento” […].

Mas e o poço? Àquele que foi “mesa” para a conversa do viajante e da mulher! Àquele que talvez seja metáfora da alma daquela mulher, de nossa alma: “o poço é profundo”. Àquele que talvez seja uma alegoria da profundeza escura de nossa alma, de fato. Uma alma “profunda”, tão bem enraizada onde a essência, ou o essencial e a verdadeira face de sua nascente se encontre apenas se tivermos instrumentos, “vasilha” no caso do poço, para chegarmos a estas águas.

Penso eu, que lá é o nosso estado de nudez, o fim do poço. Sabe àquela condição que nos vemos e sabemos quem somos, sem máscaras e sem nenhum artificio que nos “emboneque”! Sem maquiagem e sem roupa; sem qualquer capa de herói ou estudante; pastor ou ajudante, músico ou filósofo, sem ritos, sem posição […], sem qualquer subterfugio. Já não mais o social, o cultural, o econômico, o religioso; sem nenhuma dessas roupagens. Apenas eu/você/nós, nus.

É assim que hoje me vi diante do poço, da mulher e do viajante de João 4. O viajante, Jesus, oferece a mulher uma “água” que, somente em sua nudez, em seu desmascarar, poderia ser entendida. Ele oferece água ao “poço”. E Jesus, retirando dela e desnudando àquela mulher samaritana, a faz enxergar quem Ele era: “Eu Sou o Cristo”.

A sede daquele homem era simplesmente matar a sede de um “poço” profundo e vazio de si. A fome daquele homem era se tornar alimento para àquela mulher tão desejosa de se encontrar. E, chegando a profundidade de sua alma, descartando as máscaras e deixando ela em sua condição original, Ele, o homem Jesus, revelou-se e a mulher o viu e se viu também, e logo foi testemunhar.

Nossa condição talvez seja como a daquela mulher. “Samaritanos”, que vivem de retirar água de um poço profundo, que não jorra mais. Então, tudo o que precisamos é nos desnudar. Tirarmos nossas máscaras e realmente nos colocarmos como um “poço” que já não é mais nem poço. É só água poluída. É profundo apenas, onde o acesso às águas já é quase impossível.

Saindo da esfera da metáfora ou da alegoria, somos mascarados, não verdadeiros com a gente mesmo e com os outros sobre quem somos. E Jesus, aqui, diz que verdadeiro adorador é aquele que “o adora em espírito e em verdade”; para mim: aquele que vive sua nudez e, assim, em espírito e em verdade, testemunha da revelação que lhe foi concedida.

Que possamos voltar a sermos nus de alma; àquele estado onde, originalmente, fomos feitos feitura de Deus, imagem e semelhança com o Pai. Esse é o meu desejo de todo coração. Que seja o seu também.

“Já não é por causa dos teus dizeres que cremos. Nós próprios o ouvimos, e sabemos que esse é verdadeiramente o salvador do mundo”

Entre a Cruz e o Arco-Íris – A complexa relação dos cristãos com a Homoafetividade

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“Mais perto quero estar, meu Deus de ti, ainda que seja a dor que me una a ti”.

Antes de qualquer coisa, Marília de Camargo César, em seu novo livro, parte da premissa: “Qualquer coisa dita para tentar ajudar vale o risco” (Richard Foster). O título é bem chamativo, pois ter “cruz e arco-íris”, “cristãos e homoafetividade” na mesma frase podem soar como insanidade ou falta de respeito para alguns evangélicos.

No entanto, de modo jornalístico e sem defender posições teológicas favoráveis, a autora discorre consciente sobre um tema muito em voga e muito negligenciado pelas igrejas. No prefácio dessa obra, o também jornalista Ricardo Alexandre, aborda a tão difícil conversa sobre o assunto, uma vez que para o “partido” evangélico o assunto está encerrado por versículos bíblicos que condenam tal prática.

A homossexualidade é um problema tão difícil de ser tratado atualmente dentro da comunidade cristã que tudo o que for dito será severamente criticado” (Foster). A solidão do assunto nas igrejas cristãs e a manifestação homofóbica por parte de alguns líderes tidos como representantes da igreja cristã no Brasil torna a situação o “reflexo de uma sociedade assumidamente preconceituosa”, ou seja, a comunidade evangélica passa a ser, de acordo com as pesquisas, rotulada como os “antigays”. “Porque é certo que as igrejas cristãs evangélicas, incluindo aí as comunidades sérias, estão a quilômetros de oferecer respostas à questão gays”.

O livro tem como jornada refletir e expor a “trilha recortada em meio a alguns territórios mais minados de nossa época: encontra-se entre a solidez de nossas convicções religiosas mais antigas e a obscuridade de nossos desejos carnais mais íntimos; está entre as liberdades individuais e a crença milenar de que a natureza que se vê não é a natureza como concebida pelo Criador; entre o alívio de aceitar-se e o desafio de negar-se a si mesmo; está na diferença entre ser fiel a princípios e ser indiferente a seu semelhante; entre dizer que amamos a Bíblia e viver à base de clichês, como o famoso “amar o pecador e odiar o pecado” que, na prática, não significa nada” (p. 17).

Em 18 reflexões (capítulos) curtas, Marília nos faz pensar tanto antropológica, histórica, psicológica, quanto teologicamente o assunto, não apontando o “certo ou errado”, mas expondo a diversidade de pensamentos e interpretações a partir da experiência vivenciada, exegese de textos bíblicos de alguns teólogos de linha fundamental, mais humanistas, liberais e revisionistas. Conclusões? Não. Não é essa sua proposta e, sim, nos levar a uma reflexão que faça surtir o efeito prático da mensagem cristã na vivência da comunidade de fé.

Sua conversa neste livro nos direciona ao desenvolvimento de alguns assuntos. Dentre muitos, os que considero relevantes são:

1) a existência de um rebanho formado por homossexuais que congregam nas igrejas e estão anônimos, em “silencioso desespero”; “são cristãos sinceros e que nutrem um desejo de servir ao mesmo Senhor adorado pela maioria heterossexual”;

2) a rejeição de tais em suas comunidades os fazem optar por alguns rumos: abandonam a comunidade sem abdicar da fé; ou deixam a igreja e a fé e tornam-se apostatas; ou se envolvem em comunidades inclusivas;

3) o crescimento das “igrejas inclusivas” (gays) como proposta ao não engajamento das comunidades cristãs em lidar com assunto;

4) o pensamento ultrapassado dos cristãos de encerrar o assunto da homossexualidade na condição de perversão sem ao menos partilhar do assunto com quem vive no corpo aquilo que uma vertente da Psicologia e Psiquiatria diz: “é uma orientação, portanto permanente”; e a culpa carregada por homossexuais que lidam com essas acusações;

5) a aversão dos cristãos à homossexualidade e suas raízes milenares (capítulo de abordagem histórica);

6) experiências de pessoas que a jornalista traz de entrevistas pessoais que nos geram temor e tremor de Deus em relação ao assunto, e às vidas ali descritas que clamam: “meu corpo e coração gemem por um dia ser redimido”;

7) uma pergunta que nos deixa em situação perplexa: “Como pode Deus irar por um motivo que ele mesmo pode transformar, mas não transforma?” (onipotência X homoafetividade);

8) a influência da história e suas vozes; a influência da psicologia e, também, suas vozes, onde descobri que somos muito Freudianos ao mesmo tempo que condenamos as conclusões de Freud;

9) a politica e todo engajamento politico que gira em torno do assunto, tanto para libertação quanto para condenação; teologia inclusiva como “movimento global e ideológico (?)”; “eunucos de nascença?”; os militante LGBT e suas lutas por direitos;

10) a capacidade de amar plenamente as pessoas mesmo quando essas não tem a mesma capacidade; a dor de mães e o refúgio dessas em ONGs de aporte;

11) a conclusão do livro é direcionado ao coração cristão: “que respostas nós podemos oferecer as pessoas que experimentam um nível de rejeição tamanho a ponto de, as vezes, terminarem suas vidas tragicamente?”. O amor à vida e seu valor.

Marília parece não ter chegado a uma resposta plausível sobre o assunto. Ela nem se propõe a isso no livro. Mas ela cita – o que concordo ser – a nossa posição diante da situação/condição: “a tarefa tanto de pastores quanto das ovelhas exige mansidão e uma postura humilde”, pois “no caminho até o arco-íris existe uma cruz”, a cruz de Cristo que faz valer a pena todos os sofrimentos e desejos.

Com “tremenda” sabedoria, ela finaliza o texto utilizando uma pequena parte do livro “Irmãos Karamázov”, de Dostoiévski, remetendo nosso comportamento, diante do assunto, ao mesmo exemplo de mansidão de Aliócha.

Por fim, concluindo a resenha expositiva, concordo com a bem aventurança do jornalista Ricardo Alexandre no prefácio: “Bem-aventurados aqueles que, hétero ou homossexuais, saírem da leitura deste livro dispostos a fazer as obras de Deus” (p. 18).

E para todos que enfrentam a dor da rejeição, é importante ficar de olhos fixos naquele que sabe o que é ser rejeitado, pois suas mãos feridas estão cheias de poder” (p. 238).

A Estrutura da Vida: “Palavra-palavra”

Deus tomou a ação e a iniciativa inserindo-se na história. Ele “desceu do céu” (Jo 3.13).

            Não existe realidade mais utópica do que essa, a de quando queremos entender o Deus criador da humanidade deixando sua glória para misturar-se à sua criação. Os evangelhos simplesmente afirmam que Ele veio habitar no meio dos homens e inaugurar um Reino de paz, justiça e amor.

A partir dessa verdade, estruturamos uma série de argumentos para sustentar as inúmeras bases da humanidade de Jesus Cristo. É por meio dos aspectos humanos descritos nas narrativas bíblicas que se apoiam nossas prerrogativas que viabilizam nossa fé no “Deus Homem”.

Essa semana que se passou, “Semana de Estudos de Religião”, sobre “Hermenêutica – Religião na Produção e na Crítica dos Sentidos”, fui muito confrontado com a última palestra do teólogo latino-americano José Maria Vigil. Sua palestra final sobre “A grande transição para uma nova visão” abalou meus conceitos e fundiu alguns neurônios ao afirmar que, para uma nova hermenêutica e para um novo tempo axial, talvez deveríamos romper com a “religião da salvação”.

Pouco entendi de sua língua espanhola ligeira. Falava muito rápido, mas em meio ao sono entendi: “devemos romper com o plano divino, o plano do alto, para entendermos o plano que nos cabe, o de baixo”. Romper com a “salvação” é insustentabilizar o cristianismo. Sou filho de um cristianismo de raiz evangélico e na minha cabeça isso é explodir, desestruturar as bases da minha fé.

Entendi as preocupações que estavam em sua fala. Entendi até seu uso agostiniano da “Cidade dos homens” onde Agostinho tenta interpretar o mundo à luz da fé cristã. Mas porque a “salvação” deveria ser tirada do eixo para se entender o mundo aqui de baixo?

A salvação não é o axial do cristianismo apenas por causa do pecado original. É primordial por causa de Jesus homem. Trocar o termo para “libertação” ou qualquer outro que humanize nossas ações, simplesmente para criar abertura à justiça, é gerar um imenso conflito. Mas o que isso tem haver com as estruturas de nossas vidas? Talvez nada ou tudo.

Nossa vida esta organizada pelo conceito de salvação. Até mesmo um não cristão se organiza a partir do “soter”, uma vez que seu antônimo, ‘perdição’, é ausência de vida. Salvação é acúmulo de vida, e vida humana, imortalização do original, essencial.

O Deus da história e na história é um homem e veio implantar a salvação em meio à morte da vida. Entende-lo dogmática ou sistematicamente é pouco quando queremos compreender o seu interesse em se revelar como homem. Sua humanidade não é tentativa de provar sua capacidade moral e ética de nos tornar santos. Não é modelo de divinização. É sim instrumento de humanização.

O homem que quer ser como Jesus precisa captar Sua humanidade, não sua divindade. É na humanidade de Jesus que instrumentalizamos nossa humanidade, crida caída. O pecado original, posto lado a lado do humano Jesus, evapora-se. É nesse sentido que salvação ganha o eixo do cristianismo; a salvação em vida se torna o prisma de nossa caminhada de justiça. Falar de justiça abarca, a partir da humanidade de Cristo, o objetivo de levar o feito à ação dos homens.

Daí, podemos entender Agostinho em “Cidade de Deus”. A fé cristã como instrumento manuseável a partir do modelo. Na humanidade do Cristo que desceu do céu, inundo meu coração de fé e salvação. Na humanidade do Cristo absorvo meu pecado. Nele insuflo meu espírito criado e regenero o homem que sou. Isso porque creio no Deus dos cristãos, no único dito humano como eu. No fundante transcendente e no crucificado imanente. “Sua dor sarou-me; Seu sangue libertou-me”. Salvação.

Mas nem era isso que queria escrever. Queria mesmo é escrever sobre o que tenho lido ultimamente: sobre o “prazer”, entendido das doces palavras de Rubem Alves. Não o prazer carnal ou sexual, mas o prazer das palavras na Palavra.

A ‘Palavra’ (Verbo) se tornou corpo: sangue correndo pelas veias; transpiração a todo vapor; lágrimas de sofrimento e choro de dor; sorriso alegre e transbordante de paz; vida vivendo num corpo de morte; esperança respirando ares de desesperança. “O Verbo (palavra/projeto) se fez carne (sarx)…” e sobriamente “acampou (eskênôsen – fez uma casinha de sape) entre nós, e vimos sua glória (doxa – riqueza e esplendor)…”, texto que se encontra em João 1.14.

Que tipo de palavra/projeto se une ao sarx em sua humanidade e debilidade? Quem é esse ‘Verbo’ que antes de tudo era? Por que a ‘Palavra’ criadora, mágica, enfeitiçada, geradora de mundos veio a existir no nosso meio mesmo já existindo desde a eternidade? Deve ser porque ela também é projeto: de criação, de vida, de humanidade…

Muito tempo passará até que entendamos, de fato, por que a “Palavra” quis fazer morada no meio das ‘palavras’. Podemos apenas imaginar letras soltas numa mesa de bilhar tentando se conectar, ou melhor, tentando se tornar vogais ou consoantes num mundo de letras sem desígnios. Imagino que a “Palavra” veio formar frases acima de tudo. Salvação da humanidade é uma delas. Ela veio, como suprema criadora, ligar o verbo ao sujeito e ao predicado e em toda a sua sintaxe.

A “Palavra” veio tornar real a linguagem. Veio doar aos homens uma forma nova de ser ‘palavra’ diante das rupturas das estruturas da vida. Veio dizer, como nunca alguém disse antes que, a maior linguagem e suprema expressão da poesia é Jesus. Ele é a primeira junção de frases coerentes numa carta viva. Ele é o banquete de verbos acionados em nosso favor. Ele é a expressão do projeto “Palavra-palavra”. Ele é a estrutura vital da nossa vida de ‘palavra’.

A transformação da “Palavra” em corpo só poderia ocorrer pelo processo que desconhecemos, mas que, com ignorância inferimos “uma metamorfose alquímica pela qual uma substância é transformada em outra”, assim como acontece na transubstanciação da eucaristia, pensamento inserido na história pelos teólogos medievais.

Penso que, como “Palavra” criadora, veio a nós criar/gerar ‘palavras’ adjetivas, subjetivas, preposicionais, verbais, conjuntivas… (seus aspectos), escritas com seu próprio toque de seu próprio tinteiro. Tornou-nos ‘palavra’ com sentido (os mais variados); fez de nós verbo, nos tornou cartas vivas e escreveu em nós com as gotas de seu sangue. Retoca-nos toda manhã com sua saliva, que constantemente toca-lhe a boca para molhar a ponta de seu pincel. Única “Palavra” com autonomia de manusear o pincel da vida.

Ao morrer e ressuscitar, a “Palavra” tornou-nos alfabeto completo. Deu-nos olhos para enxergar e mente para memorizar o que vemos; deu-nos boca para, antropofagicamente, nos alimentarmos dEle. Isso porque a antropofagia da “Palavra” torna a memória cativa daquilo que foi devorado, “pois minha carne é comida e o meu sangue é bebida. Aquele que come a minha carne e bebe o meu sangue mora em mim e eu nele…” (João 6.54-55).

Tendo-a na memória, a “Palavra” dará conta de traçar em nós a linha de seu próprio rosto e, então, seremos parecidos com ela, com Jesus. Dai, ‘palavras’ não serão mais necessárias, pois Seus olhos serão nossos olhos; Sua vida nossa vida… “e meu espírito reviveu em Sua história” (Glorious Ruins).

Eu sou Barrabás!

Cresci ouvindo as pessoas ao meu redor criticarem o ditado que diz “a voz do povo é a voz de Deus”, afinal, foi o povo que escolheu libertar Barrabás e crucificar Jesus, como poderia Deus cometer tal ato de injustiça?

Mas analisando o quadro de uma forma mais ampla, posso afirmar que nesse contexto a voz do povo era de fato a voz de Deus, pois não foram os fariseus, não foi Pilatos e muito menos o povo que decidiu crucificar a Cristo, foi o próprio Deus!

Por mais absurdo e escandaloso que seja aos nossos ouvidos, tudo estava debaixo de um plano arquitetado antes da fundação do mundo. Deus em sua justiça já havia determinado o preço do pecado humano: a morte, mas em Seu amor preparou o resgate do seu povo, entregando Seu próprio Filho para morrer em nosso lugar.

Nesse espetáculo de sangue, pecado, condenação, sofrimento, cruz, sacrifício e redenção existe uma figura um tanto peculiar, símbolo de desprezo: Barrabás.

Muito especula-se sobre a vida de Barrabás, biblicamente pouco é falado sobre ele, mas sabemos que foi um assassino e um arruaceiro. Historiadores afirmam que era um zelote nascido em Jopa, na Judéia. Sendo zelote, era inimigo de Roma, um problema para as autoridades que dominavam naquele momento.

O fato é que Barrabás tinha cometido um crime, era culpado na Lei e “merecia” a sentença, ao contrario do seu concorrente à morte: Cristo nunca havia cometido uma falta sequer, era um inocente perante os homens e perante Deus.

Mesmo assim, no ultimo momento, Barrabás é liberto e Jesus é condenado.

Não consigo imaginar o que se passou na mente e no coração desse homem quando ouviu o povo gritando para que o soltasse, mas uma coisa é certa, naquele momento ele teve a chance de recomeçar a sua vida, foi absolvido de uma pena de morte!

O senso comum costuma torcer o nariz para esse personagem, mas eu me identifico com ele, um pecador errante que deveria morrer, mas, devido à um plano muito maior do que eu posso entender e estabelecido antes mesmo de eu nascer, fui liberto no ultimo momento da minha impagável sentença. Um inocente morreu em meu lugar…

O mais engraçado de tudo é que Barrabás (Bar Abbas) em hebraico significa: Filho do Pai. Sim, eu sou Barrabás!

Cegueira

Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.
Livro dos Conselhos

Imagine acordar num dia comum e perceber que você perdeu a sua visão, de repente as tarefas mais simples e corriqueiras do dia a dia se tornaram verdadeiros obstáculos. Agora, para piorar esse quadro, imagine que a “praga” da cegueira não atingiu apenas você, mas também toda a sua casa, pior, atingiu toda a sua cidade, pra complicar ainda mais, imagine que o mundo inteiro está habitado por pessoas totalmente cegas. Talvez você se lembre do famoso livro Ensaio Sobre a Cegueira de José Saramago (ou da excelente adaptação para filme de Fernando Meirelles). Pois bem, é uma obra de ficção, mas que demonstra exatamente a condição em que vivemos.

Usando as palavras de Saramago “é desta massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade”, o ser humano carrega na sua identidade o mal, todos nós temos um lado obscuro, negro, que tentamos o tempo todo maquiar com representações de bons costumes e discursos sobre nossa intocável moralidade. Mas não há como esconder, após a Queda estamos todos assim, deformados pelo pecado, não há um justo sequer, ninguém que entenda, ninguém que busque o bem, ninguém! Fomos encerrados todos na desobediência, e em conseqüência nos tornamos presunçosos, arrogantes e egoístas, e entre os religiosos, no qual eu não escapo, a lista também é grande, e ainda decorada com hipocrisia.

Mas como encarar a nossa miserabilidade com honestidade se preferimos ignorá-la e escondê-la? Falta-nos pessoas humanas de verdade, porque estamos cercados de imagens projetadas e idealizadas que não condizem com a realidade. Fomos divididos entre os que estão no pedestal da santidade e o resto dos mortais ou nos isolamos num “espiritualismo” que nos impede de encarar a vida com a coragem e responsabilidade que ela exige, esquecemos que o caminho para o céu não está na auto contemplação e muito menos em fugir para devaneios abstratos, mas está em olhar para Cristo, e olhando para Cristo conseguir enxergar o meu estado deplorável e enxergando a minha decadência conseguir me compadecer e amar o próximo, pois somos semelhantes.

Nos escandalizamos com qualquer tropeço alheio, mas não controlamos a nossa língua afiada, já calejado pelas quedas faço coro com Johann Goethe “Não vejo falta cometida que eu não pudesse ter cometido” e então volto a pensar no livro de Saramago: estamos todos cegos! Vivendo num mundo cego, como se voltássemos ao nosso estado mais animalesco e ainda pior, fazemos tudo isso em nome de Deus! Somos condutores cegos, andamos tateando as paredes no escuro, escorregamos e derrubamos tudo e todos, não conseguimos tirar a trave dos nosso olhos porque fomos infectados pela cegueira e não encarnamos Cristo porque não conseguimos enxergá-Lo!

Alguns se entregaram ao lamaçal da decadência humana, outros tentam em vão se limpar com suas próprias forças e ficamos aqui, nessa bacia suja, devorando uns aos outros como canibais. E criamos segregações religiosas, guerras egoístas, exploramos o nosso irmão com abuso emocional, físico e espiritual, nos tornamos insensíveis ao sofrimento e invejosos do sucesso alheio.

Tudo conseqüência de uma profunda cegueira.

Encaro-me em Bartimeu, clamando misericórdia ao Filho de Davi, gritando sem reservas em meio a multidão, e não se importando com as repreensões, ele sentia a dor do seu estado e por isso não hesitou em clamar “MESTRE, EU QUERO VER!”